#354 Trabalho e Louvor
May 16, 2015Dr. Craig,
Eu queria fazer uma pergunta como alguém que é simplesmente curioso sobre o cristianismo.
Você pode explicar o que eu considero serem as duas palavras importantes da vida sob o seu Deus? Trata-se de trabalho e louvor.
A vida é dura. Isso é algo com que provavelmente todos, exceto os indivíduos mais afortunados, sortudos e ricos do planeta, concordariam. Para a grande e esmagadora maioria dos seres humanos a vida em grande parte se baseia no trabalho - com ocasionais períodos de descanso e relaxamento.
Quando eu imagino um Deus ideal, penso em um que seria feliz, alegre, amoroso, e que teria projetado o nosso mundo e nossa vida para girar em torno do prazer, exploração, diversão, relaxamento e uma oportunidade de desfrutar do outro como seres humanos. No entanto, como eu entendo a Bíblia, a vida cristã é na maior parte apenas trabalhar (com os crentes falando sobre "servir" a Deus, quase como escravos de um mestre) e "louvor" (o que me parece um conceito um tanto assustador).
Em primeiro lugar, quando se trata de trabalhar, eu não entendo por que isso é praticamente o centro de toda a vida. Nós quase não temos tempo a cada dia para desfrutar o básico da vida, para focar em nossas relações (com amigos, irmãos, filhos, etc.), ou até mesmo para dar atenção a nossa própria saúde. Temos que trabalhar para sobreviver. No entanto, por que um Deus todo-poderoso e impressionante projetou o mundo desta maneira? A vida é, por vezes, um miserável trabalho no seu pior. É apenas preenchida com o trabalho. E o Deus da Bíblia é descrito como tendo trabalhado seis de sete dias, antes de finalmente tirar um dia de folga!!
Eu, na verdade, já ouvi você dizer, em seus debates, que se não houvesse sofrimento - no qual poderíamos incluir o trabalho - os seres humanos simplesmente iriam se transformar em pequenos fedelhos mimados. E assim, o sofrimento, ou o trabalho, podem servir a um bem maior em fazer as pessoas responsáveis. Acho que tenho problemas com isso, porque enquanto eu entendo que a responsabilidade é uma coisa boa, o grau em que a vida está cheia de trabalho monótono e mundano em uma base diária constante parece desproporcional a qualquer bem que poderia produzir. A maioria das pessoas pode aprender a ser grata e responsável sem ter que trabalhar 75-85% de sua existência. Mas, além disso, eu também notei que muitos dos que trabalham mais arduamente e por mais tempo na sociedade, muitas vezes podem fazê-lo por orgulho e competição, como forma de validar sua auto-estima (provavelmente porque eles não têm vida social), ou por ganância.
E depois há o louvor. Isso é algo que eu tenho dificuldade em entender bem. Será que um ser supremo como Deus realmente precisa comandar ou ainda desfrutar de um grupo de seus "seguidores" cantando músicas para ele uma vez por semana no domingo e falando"louvado seja Deus" para ele? Eu espero que você não se ofenda, mas isto honestamente soa assustador para mim, porque faz parecer que ser cristão é, em última análise, ser um escravo de uma forma. Você é forçado a trabalhar e depois ainda"louvar" esse ser superior. Será que a ideia de que você é forçado a adorar a Deus não o incomoda ou até mesmo soa um pouco assustador, Dr. Craig?
Eu espero que você não se ofenda com as minhas perguntas, mas estes são sentimentos genuínos que tenho ao olhar para o cristianismo e para a vida em geral de fora. A vida já é difícil o suficiente, e os aspectos de trabalho e de louvor no cristianismo fazem-na parecer mais ainda. Eu não vejo como a vida cristã seja, supostamente (de alguma forma), muito melhor. Agradeço antecipadamente por seu tempo e consideração por minha pergunta.
Felicidades,
Lawrence
Estados Unidos
Dr. craig’s response
A [
Muito obrigado por sua interessante e instigante pergunta, Lawrence! Ela mostra quão diferentemente cristãos e não-cristãos consideram certos aspectos de nossas vidas. Vamos falar sobre o trabalho e louvor.
1. Por que o trabalho é praticamente o centro de toda a vida? Você tem toda a razão em nos lembrar que nós, como cristãos, precisamos desenvolver uma teologia do trabalho. Em particular, você tem razão em apontar para Deus nas narrativas da criação como um exemplo de alguém que trabalha antes de tirar um dia de folga. Isto claramente tem a intenção de fornecer um modelo para nossas próprias vidas. Acho fascinante que na história da criação, Deus deu um trabalho a Adão a fazer antes de que ele quedasse no pecado: "E o Senhor Deus tomou o homem e colocou-o no jardim do Éden para o cultivar e guardar" (Gênesis 2:15). O trabalho é uma atividade sagrada que caracteriza até mesmo uma existência sem pecado.
A maneira como que você caracteriza a existência ideal, em contraste (ainda que compreensível), é uma visão hedonista da vida bem contrária à visão bíblica. Um mundo que "gira em torno do prazer, a exploração, diversão, relaxamento e de uma oportunidade de desfrutar do outro como seres humanos" soa como o sonho de um adolescente, mas, na verdade, seria um pesadelo. Esse mundo que gira em torno do prazer é uma visão egocêntrica da vida que é a antítese de responsabilidade, sacrifício, realização e crescimento em virtude moral. Agentes morais maduros nunca iriam evoluir em um mundo assim. O trabalho é, portanto, um grande benefício para o desenvolvimento humano, tanto individual como coletivamente. Agora, é claro, como você aponta, as virtudes obtidas através do trabalho não são automáticas. "Muitos dos que trabalham mais arduamente e por mais tempo na sociedade, muitas vezes podem fazê-lo por orgulho e competição, como forma de validar sua auto-estima (provavelmente porque eles não têm vida social), ou por ganância". Mas isso não é devido a qualquer déficit inerente ao próprio trabalho; é devido à pecaminosidade humana, que pode perverter mesmo os grandes bens. A teologia cristã do trabalho também envolverá a devida motivação para o trabalho, como servir ao Senhor com alegria e o sustento da família. A teologia cristã do trabalho provavelmente também envolve a noção de chamado, a ideia de que Deus me chamou para ser um encanador ou um professor ou uma dona de casa ou um fazendeiro. Quando vejo o meu trabalho, não importa quão mundano seja, como um chamado de Deus que eu posso fazer para Ele, isso ajuda a ter a devida motivação, especialmente quando nós servimos com um coração agradecido por todo o bem que Ele nos concedeu em Cristo.
A menção do pecado humano serve para nos lembrar, no entanto, de que vivemos em um mundo caído, em que o trabalho se torna muito mais difícil. Mais uma vez na história da criação vemos que, após a queda, Deus diz a Adão: " Maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida […] No suor do teu rosto, comerás o teu pão, até que te tornes à terra" (Gênesis 3:17, 19). Em um mundo pecador caído o trabalho é freqüentemente corrompido por práticas de exploração, baixos salários, corrupção, dominação e discriminação. Assim, não é de surpreender que "o grau em que a vida está cheia de trabalho monótono e mundano em uma base diária constante parece desproporcional a qualquer bem que poderia produzir". Ou, pelo menos, a qualquer bem terreno que poderá produzir (embora, dada a nossa perspectiva limitada, nós realmente não temos ideia dos futuros bens que o nosso trabalho pode produzir!)! Ao desempenharmos fielmente o nosso dever de fornecer para nós e para nossa família e fazer o trabalho que Deus nos chamou para fazer, nós fazemo-lo sabendo que esta vida terrena é apenas uma breve existência transitória que nos prepara para a vida após a morte, na qual Deus recompensará abundantemente aqueles que O serviram fielmente. Para os cristãos escravos em Colosso, Paulo escreveu: "E, tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor e não aos homens, sabendo que recebereis do Senhor o galardão da herança, porque a Cristo, o Senhor, servis"(Colossenses 3:23-4). O problema, Lawrence, é que você está pensando nesta vida terrestre como toda a vida que temos. Mas de acordo com a fé cristã isso não é verdadeiro. Agora, eu aprecio plenamente que para um não-cristão isto pode soar como fantasia para você; mas o ponto é que, se o cristianismo é verdadeiro, então esta é uma perspectiva razoável de trabalho em um mundo caído. Só precisa ser acrescentado que temos bons fundamentos da historicidade da ressurreição de Jesus para a nossa esperança.
2. Forçados a louvar? Eu não pude deixar de sorrir quando li sua segunda pergunta, Lawrence, porque mais uma vez de forma muito vívida ela ilustra a maneira diferente que os cristãos e não-cristãos veem as coisas! Você acreditaria que eu amo adorar a Deus? É verdade! Depois de conhecer a Deus e Sua salvação quando adolescente, eu achei tremendamente gratificante e emocionante cantar louvores ao Senhor e orar a Ele em adoração corporativa. Eu O amo! Ele é meu Salvador, que deu Sua vida na cruz por mim, ainda indigno, para perdoar os meus pecados, para me restaurar em um relacionamento correto com Ele, e para me dar a vida eterna! Como eu poderia não louvá-Lo? Forçado a adorar a Deus? Nunca! É minha alegria adorá-Lo e servi-Lo.
Além disso, um pouco de reflexão teológica revela que Ele é o summum bonum, o bem maior, o paradigma e a fonte de todo valor e amor. Ele é, como Santo Anselmo ensinou, o maior ser concebível. Por isso Ele merece louvor e adoração. Eu suspeito que o seu problema, Lawrence, é que você está pensando em Deus, nas palavras de um jornalista britânico, como "uma espécie de cara", e seria, de fato, assustador se houvesse algum cara obrigando-nos a adorá-lo! Mas não há nada de estranho ou impróprio em adorar o maior ser concebível, o Bem Maior.
Eu não estou de forma alguma ofendido por suas perguntas, Lawrence ao contrário, eu as achei preciosas, porque elas são um lembrete muito vívido de quão diferente do incrédulo o crente vê Deus. O que torna o cristianismo grande é, em primeiro lugar, que é a verdadeiro. Mas, além disso, ele dá ao seu trabalho, mesmo quando penoso, um significado e valor eterno, e conecta-o a um bem incomensurável, o conhecimento do próprio Deus.
- William Lane Craig